John McCain – Perfil detalhado.

A pouco mais de 8 dias da decisão final das Presidenciais Americanas, fica toda a informação detalhada do candidato republicano John McCain, o qual nesta altura e segundo várias sondagens estará com uma desvantagem entre 8 a 12 pontos para Barack Obama.

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John McCain

Idade: 72
Naturalidade: Base EUA Panamá
Estado civil: Casado
Cargo actual: Senador do Arizona
Partido: Republicano

Sobreviveu a cinco anos e meio de prisão no Vietname, sobreviveu a três quedas de aviões e às torturas, sobreviveu ao isolamento entre os republicanos nos anos Bush e até sobreviveu à sua frontalidade. Herança do pai e do avô, a combatividade está-lhe no sangue.

Nalgumas das fotografias tiradas no USS Missouri a 2 de Setembro de 1945, durante a cerimónia de rendição dos japoneses, reconhece-se John McCain. Tinha então pouco mais de 60 anos, mas parecia muito mais velho. O seu filho, John McCain II, também estava nesse dia na baía de Tóquio, ao comando de um submarino da marinha dos Estados Unidos. Os dois almoçaram juntos e o velho patriarca regressou depois a casa, em San Diego, na Califórnia, onde morreria a 6 de Setembro de ataque cardíaco. O segundo, de acordo com os seus próximos, pois tivera um outro, não fatal, semanas antes quando ainda comandava a aviação naval no cenário de guerra do Pacífico, mas escondera-o. Queria assistir ao fim da guerra e dizem que fazia questão de morrer em casa.

Vinte e dois anos depois, em Outubro de 1967, o avião pilotado pelo seu neto, John McCain III, seria abatido sobre Hanoi, no Vietname do Norte. Nos cinco anos e meio seguintes o ainda jovem piloto conheceria várias prisões e experimentaria a tortura. O seu pai, que entretanto fora promovido a Almirante, como o avô, assumiu então o comando da frota americana no Pacífico e, todos os Natais, visitava a base de marines mais próxima da zona desmilitarizada entre os dois Vietnames. Nenhum outro local lhe permitia estar tão perto do filho – tanto mais que este recusara ser libertado pelos norte-vietnamitas apenas por ser filho de um Almirante.

Tendo partido os dois braços e uma perna, e depois sido espancado pela multidão que o localizou, John McCain III foi dado como quase morto pelos companheiros que o acolheram na cela, mas salvou-se. Como se havia salvo semanas antes durante um incidente no seu porta-aviões: um outro avião disparou acidentalmente um míssil que atingiu aquele onde se preparava para descolar. Fugiu antes deste explodir e provocar um incêndio que mataria 132 marinheiros.

Mas nessa época já o irrequieto piloto, que em tempos parecera ter mais vocação para conduzir um Corvette descapotável e dançar com as louras mais espampanantes, ganhara reputação como sobrevivente. Por duas vezes, uma no Texas durante um voo de treino, outra em Espanha, quando o avião que pilotava embateu em linhas eléctricas, conseguira ejectar-se a tempo de evitar uma morte certa.

Contudo a sua resistência andava a par com a sua dificuldade em seguir a norma numa instituição, a militar, onde esta determina as carreiras. Foi por isso sem grande surpresa que, depois de ter conhecido de perto Ronald Reagan e ter desempenhado uma missão de ligação entre o Pentágono e o Congresso, numa altura em que a possibilidade de chegar a almirante como o seu pai e o seu avô já se esvanecera, John McCain III deixou cair o III e fez uma aterragem na política pelo menos tão audaciosa e rápida como as que fazia nos porta-aviões da esquadra do Pacífico.

A eleição “impossível”

Quando hoje olhamos de perto para uma fotografia do candidato que há mais de 40 anos tem o cabelo completamente branco é impossível deixar de notar as marcas das cicatrizes. Muitas vêm dos seus tempos de soldado e de prisioneiro de guerra, mas outras são consequência da sua primeira grande batalha política: a conquista de um lugar na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos pelo 1º círculo eleitoral do Estado do Arizona. Não que a campanha tenha sido violenta – mas porque em Phoenix o sol é inclemente.

Na verdade, quando no início de 1981, um consultor político de Washington, J. Brian Smith, aceitou almoçar com um tal capitão John McCain não queria acreditar no que este tinha para lhe pedir: “apenas” que o ajudasse a ser eleito, dali por dezoito meses, para o Congresso dos Estados Unidos pelo Arizona, um estado onde nunca vivera, e por um distrito eleitoral que ainda nem sequer escolhera. Todos os seus conselhos para desistir desse “impossível” projecto caíram em saco roto pelo que, passadas poucas semanas estava a ajudar McCain no mais improvável dos círculos eleitorais: o de Phoenix, onde a eleição seria aberta pois o anterior congressista não se candidatava.

A teoria política estabelecia que a missão era virtualmente impossível. Por um lado, McCain não nascera no Arizona, não vivera no Arizona, não conhecia o Arizona. Por outro lado, havia fortes pretendentes republicanos. Por fim, McCain não tinha dinheiro nem máquina partidária. Mesmo assim Brian Smith aceitou apoiá-lo e não se arrependeu.

O antigo piloto compreendeu que tinha de ganhar as primárias entre os republicanos e que só o conseguiria convencendo um a um os eleitores. Literalmente. Por isso, durante semanas, tratou de bater à porta de vinte mil republicanos, seis horas por dia, seis dias por semana, gastou as solas a três pares de sapatos e, sobre o inclemente sol do Arizona, contraiu cancro de pele, o que o obrigou a quatro pequenas cirurgias cujos traços ainda não desapareceram. Mas não só: os primeiros debates que teve revelaram um político com mais intuição do que a detectável pelos consultores políticos.

Num desses debates, quando o atacavam por não ter nascido nem vivido no Arizona, após ter ensaiado dezenas de justificações diferentes, deixou escapar o que à época, com as feridas do Vietname ainda a sangrar, estava longe de ser óbvio: “Servi 22 anos na Marinha, o meu pai serviu a vida inteira, o meu avô também. No serviço militar passamos a vida a mudar de casa, vivemos em todos os recantos do país, nos mais diferentes locais do mundo. Gostava de ter tido o privilégio de, como vocês, ter vivido toda vida num local tão agradável como Phoenix, mas estive a fazer outras coisas. Aliás, pensando bem, o lugar onde vivi mais anos na minha vida foi numa prisão em Hánoi”.

A audiência nem quis acreditar, mas quando caiu em si rebentou em aplausos e o diário “Phoenix Gazette” falaria no dia seguinte da mais devastadora resposta política que jamais escutara. Mas ainda se estava longe de perceber que aviador-feito-político apenas havia deixado que o coração falasse, e que seria com essa marca indelével que construiria a sua carreira na Câmara dos Representantes e, a partir de 1986, no Senado. Na verdade, mesmo depois de McCain ter vencido as primárias republicanas e a eleição geral, os políticos locais falavam de um epifenómeno que logo se esgotaria. Enganaram-se. Dois anos depois foi reeleito e, passados mais dois anos, deu o salto para o Senado. E não um salto qualquer.

O lugar de senador pelo Arizona que foi a votos nesse ano era o que, durante décadas, fora ocupado por uma das figuras mais marcantes do Partido Republicano: Barry Goldwater. Candidato presidencial em 1964 (logo depois do assassinato de Kennedy), Goldwater perdera para Lyndon Josnson por uma margem esmagadora, mas recentrara o discurso do partido. De Reagan, que fora uma das figuras cimeiras da sua campanha, disse-se então que entrara brevemente na política, pois apostara no cavalo errado…

O senador “maverick”

Na Câmara dos Representantes e, sobretudo, no Senado, o ex-militar que sempre tivera dificuldades em viver com os regulamentos da caserna, revelar-se-ia um dos políticos mais surpreendentes de Washington. Em boa parte porque o militar insubordinado daria lugar a um político ainda mais insubordinado. A alguém que, sendo republicano, nem sempre votava com os republicanos. E a um senador que representando o Arizona nem sempre votava de acordo com os interesses estreitos do Estado que o elegera, e depois reelegera por margens cada vez mais dilatadas.

Os americanos têm um nome para este tipo de políticos: maverick. Não há uma tradução óbvia, mas será qualquer coisa entre excêntrico, inconformista, individualista ou até dissidente. E não há dúvida que John McCain tem feito jus à classificação.

Se é tradicional, sobretudo no Senado, os políticos norte-americanos terem grande autonomia e rebelarem-se muitas vezes contra os líderes das respectivas bancadas, McCain é dos que mais longe tem levado a dissidência, tornando-se num dos republicanos que mais colabora com senadores democratas.

Daí que, em 2000, quando tentou pela primeira vez a corrida presidencial, McCain tenha tido de enfrentar o temível rolo compressor da máquina do partido e de lutar contra o seu candidato predilecto, George W. Bush. Algumas das acusações que ambos então trocaram foram das mais virulentas de toda a campanha e, se McCain acabou por apoiar Bush, a verdade é que ao longo dos seus sete anos de mandato esteve muito longe de ser um apoiante fiel. Pelo contrário.

Daí que tenha entrado nesta campanha com um só trunfo e inúmeros “handicaps”. Entre os republicanos, as suas posições sobre o financiamento das campanhas, a imigração, mesmo o aborto ou os casamentos homossexuais, tornam-no um candidato difícil de digerir pelas bases mais conservadoras. Entre os independentes e os democratas, o seu apoio firme ao esforço de guerra no Iraque – onde tem um dos seus filhos – e insusceptível de ser aplaudido. Mesmo entre os que recordam que McCain foi um dos mais ferozes críticos dos métodos de interrogatório defendidos pela administração Bush, que lhe lembravam demasiado as torturas que sofreu na prisão de Hánoi.

Quase sem base de apoio, como conseguiu então John McCain renascer das cinzas, voltar de novo à vida – uma experiência que para ele não é nova… -, ter conseguido destacar-se como favorito durante as primárias republicanas e finalmente ter visto o seu nome como o candidato oficial do partido às eleições de 4 de Novembro? A explicação está no que é considerado o seu único grande trunfo: a integridade. Mais do que a integridade: a frontalidade com que diz o que pensa e não o que é mais conveniente, pecado em que quase nunca cai.

2008, ano da coragem?

No fundo McCain é, como um dia dele disse o democrata Griffin Bell, um dos últimos heróis americanos. Dos autênticos. Dos que têm mesmo coragem, mesmo quando esta desafia a racionalidade e o cálculo político. E é isso que faz dele um candidato temível.

O ano de 2008 pode ser decisivo para McCain, embora as recentes sondagens pareçam indicar que Obama se está a transformar no próximo inquilino da Casa Branca.

Mas se isso acontecer, se McCain vencer a 4 de Novembro, o “maverick” terá de compreender a enorme distância que há entre aterrar e descolar de um porta-aviões e estar ao comando do porta-aviões, como notava recentemente no “New York Times” David Brooks. De qualquer maneira, se McCain ganhar, fará história, pois tomará posse como Presidente bem depois de ter completado os 72 anos. Até hoje o candidato mais velho a chegar à Casa Branca fora Reagan, que ainda não completara 70 anos no dia em que tomou posse pela primeira vez.

Dado como moribundo mais de uma vez, dado como morto politicamente inúmeras vezes, este filho e neto de almirantes que teve grande dificuldade em completar os estudos na Academia Naval, já viveu o suficiente para saber que não é fácil enterrá-lo. Apesar dos cabelos brancos e das cicatrizes.

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